Podcast

Podcast

“Eu sofria muito de tédio. Acho que, em parte, a minha criatividade vem daí” diz Rita Red Shoes, cantora e compositora

Neste episódio, conversamos com Rita Red Shoes sobre os bastidores do processo criativo e a forma como a música se relaciona com outra grande parte da sua vida: a psicologia. Antes de tudo isso, descobrimos que automobilistas que na autoestrada vão na faixa do meio a inquietam muito. Circule na faixa da direita.
Aprendemos que a criatividade nasce num lugar que parece ser o seu oposto: o tédio, o “tempo de nada”. Questionamos se existe uma fórmula para escrever canções, e se a pergunta “o ovo vem antes da galinha” também se aplica no mundo musical: A letra vem antes da melodia, ou a melodia é que vem antes da letra? Para a nossa convidada, a sua forma de trabalho não se prende a barreiras fixas: há músicas à espera de palavras e palavras à espera de música.
A conversa passa também pelo papel do instinto como “bússola” artística, pela aprendizagem através do erro e como todos os sons são possíveis de se tornar música.
Exploramos ainda a ligação entre psicologia e arte, a forma como nos conhecemos através do outro e projetos que usam a expressão artística como ferramenta terapêutica, demonstrando como a música consegue chegar a lugares onde as palavras, muitas vezes, não chegam.
Terminamos o episódio com a nossa dinâmica habitual da caixa do desejo filosófico, e descobrimos que o de Rita Red Shoes é uma árvore. Para saber o porquê, junte-se se a nós neste episódio, inquiete-se.

Podcast

“Trump é a lenda de Putin”, diz Michel Eltchaninoff, Filósofo

Neste episódio, gravado ao vivo no ESPANTO — Festival Internacional de Filosofia 2025, o filósofo Michel Eltchaninoff apresenta um conceito de medo que muitos sentimos: a polemofobia, um medo geopolítico, dos confrontos e das guerras. Aquele medo gerado quando ouvimos as notícias e vemos imagens das tragédias bélicas no mundo, como em Gaza, Teerão ou na Ucrânia, e sentimos que a instabilidade do mundo lá for a também nos pode alcançar.
Partindo da ideia kantiana da Paz Perpétua, Michel reflete sobre a forma como passámos da esperança de uma era de estabilidade pós-Guerra Fria para um mundo que parece regressar à visão de Heraclito: “a guerra é o pai de todas as coisas”. Num contexto marcado pelo regresso dos conflitos armados e pela ascensão de figuras como Vladimir Putin e Donald Trump — que explora a ideia de “Putin-Trumpismo” —, questiona o impacto destas transformações na democracia, no nosso imaginário coletivo e nos leva ao ponto de perplexidade, de “Espanto”. E o que é o espanto? Nas palavras de Michel “É um estado tão extremo de estupefação que não se consegue reagir; não se consegue fazer nada.”
Mas este episódio não se fica pelo diagnóstico. Falamos sobre o espanto como estado de paralisia perante um mundo que parece escapar ao nosso controlo e sobre a importância de enfrentar o medo em vez de fugir dele. Porque, como recorda Michel, dar um nome ao perigo é o primeiro passo para o compreender, e, além disso, “o medo é maior à distância e diminui quando nos aproximamos.”
Num tempo de incerteza, Michel faz-nos um convite à reflexão: E deixa-nos um repto: “Vamos baixar a cabeça ou vamos tornar-nos combatentes da resistência?” Talvez a resposta não esteja em atos heroicos, mas naquilo que cada um de nós ainda pode fazer: nas palavras, nas conversas, nos textos que escrevemos, nos votos que fazemos e nas causas que decidimos defender.
Não paremos de pensar e de o fazer juntos. Vemo-nos para a semana.

Podcast

Será a nossa maior riqueza o sermos incompletos? – Raquel Marinho, Jornalista e storyteller

Neste novo episódio, a nossa convidada, Raquel Marinho, fala-nos das suas grandes inquietações quese enquandram nas grandes questões da filosofia: haverá vida depois da morte? Onde é que eu estava antes de ter existido? Existe Deus ou algum tipo de transcendência? Essa transcendência interfere ou não na minha vida?
Para Raquel Marinho, o ainda não ter resposta não é um problema, pois, nas suas palavras “É a dúvida que alimenta a procura”. Este episódio está recheado de conversa, humildade e entendermos que a resposta “eu não sei” continua a ser válida.
Será possível dizer se uma poesia é boa ou má? Talvez não. Talvez haja outro critério para avaliar a sua eficácia: o desconforto. Fazendo das palavras da poeta portuguesa Ana Hatherly as suas, Raquel cita “Quando o poema é bom, não te aperta a mão, aperta-te a garganta”. Esse desconforto, essa inquietação gerada quando nos étirado o chão, não é má em si mesma, mas sim aquilo que nos entrega uma imagem nova de algo que conhecíamos mas não conseguíamos denominar.
Para que serve a poesia? Se calhar chocante para uns, ou óbvio para outros, a Poesia não serve para nada. Mesmo não tendo utilidade, acrescenta à vida coisas que não experimentaríamos sem ela. Nas palavras de Raquel, “A utilidade é uma palavra que não faz muito sentido quando falamos de poesia, mas ainda bem”.
Refletimos sobre o que realmente importa na vida, e através de um excerto de Amália Bautista, chegamos à conclusão de que há poucas coisas que realmente importam: amar e ser amado, e não morrer antes dos nossos filhos.
Tentámos ainda descobrir o grau de parentesco entre a Poesia e a Filosofia. Serão mãe e filha? Se sim, qual ocupa que papel? Serão irmãs ou primas afastadas? O que sabemos é isto “Partilham o Espanto.
Por fim, “A maior riqueza do homem é a sua incompletude”, de Manuel de Barros, é a frase que marcou este podcast pela refleção de que verdadeiramente somos incompletos, e há paz em reconhecer a nossa incompletude
Não é o não encontrar respostas que nos faz desistir de perguntar. Não desista de perguntar, de pensar, de se inquietar.

Podcast

“Não podemos fazer com que o sonho de uns seja o pesadelo de outros”, afirma Daniel Innerarity, filósofo

Neste episódio, gravado no ESPANTO – Festival Internacional de Filosofia, em 2025, Daniel Innerarity, filósofo, reflete sobre o medo como um fator inerente da condição humana. O medo não é uma característica exclusiva da nossa era: os seus objetos podem mudar ao longo da história, mas o medo permanece. Ao reformular um conhecido provérbio, o Daniel Innerarity afirma: “Diz-me de que tens medo, e eu dir-te-ei quem és”, sublinhando que são os nossos medos que nos revelam.

Innerarity analisa também a relação entre medo e segurança, recorrendo às ideias do sociólogo alemão Niklas Luhmann, explorando como a sensação de segurança depende, em grande medida, das expectativas que criamos: quanto mais elevadas forem essas expectativas, maior será a perceção de insegurança. Paradoxalmente, o progresso aumenta o desejo de uma proteção ainda maior. À medida que a sociedade melhora, tem tendência para esquecer as dificuldades do passado, perdendo a memória das conquistas alcançadas e tornando-se mais exigente perante os problemas que persistem.
Esta ideia aproxima-se da reflexão de Alexis de Tocqueville “Quanto mais residual é um fenómeno negativo, mais intolerável ele se torna.” O progresso, em vez de eliminar a insatisfação, o que faz é redefinir os nossos padrões de avaliação da realidade.
O filósofo aborda ainda a transformação da identidade nas sociedades contemporâneas, marcada pela passagem de uma identidade convencional para uma identidade pós-convencional. Hoje, a biografia de cada indivíduo é menos determinada pelo destino e mais pelas decisões que toma. No entanto, esta liberdade traz consigo um novo peso: já não existe apenas o direito de decidir, mas uma verdadeira obrigação de escolher, gerando ansiedade e responsabilidade permanentes.
Daniel Innerarity identifica dois desafios centrais do presente: o medo de perder a democracia e a necessidade de compreender os medos dos outros. Recuperando uma reflexão de Charles Taylor, faz um apelo: “não podemos fazer com que o sonho de uns seja o pesadelo de outros”, defendendo que uma sociedade democrática exige a conciliação de perspetivas distintas.
Nas palavras do nosso convidado “Se colocarmos as coisas de forma tão dicotómica, inevitavelmente falharemos e, certamente, não evitaremos o medo.”

Podcast

“Devemos usar os nossos defeitos, as nossas limitações para fazermos arte” diz Júlio Resende, músico e compositor

Neste episódio, o convidado Júlio Resende senta-se para uma conversa profunda sobre música, futebol e filosofia. A sua grande inquietação é a vida, a limitação da existência humana, a dificuldade de sair de si próprio e se colocar no ponto de vista do outro. A música surge como uma das formas privilegiadas de tentar ultrapassar os limites do “eu”, criando um espaço de encontro, escuta e partilha.
Embora a experiência musical seja distinta para quem interpreta e para quem ouve, o olhar técnico do executante não o impede a fruição da música. Pelo contrário, a razão e a emoção não são dimensões incompatíveis: “a racionalidade pode comover-se e a comoção também se pode tentar racionalizar”, o desafio está em encontrar um equilíbrio entre ambas, ideia sintetizada na expressão “A racionalidade como sentinela da emoção”. Quando as emoções deixam de ser acompanhadas pela razão, tornam-se facilmente instrumentalizadas ao serviço de ideologias e movimentos totalitários.
A improvisação ocupa um lugar central na visão artística de Júlio Resende. É ela que obriga o músico a criar algo novo a cada pulsar criativo, recusando a repetição e capturando o efêmero enquanto princípio estético. Esta ideia está profundamente ligada ao jazz, cuja essência consiste em nunca ter um fim, nem se aprisionar à sua própria história. Cada interpretação é uma renovação, cada execução transforma a música mantendo o jazz vivo. Nesse sentido, Resende aproxima o jazz a uma atitude socrática: a resistência de se aprisionar.
A criação artística também nasce das fragilidades humanas, e como nos aconselha Júlio Resende “Devemos usar os nossos defeitos, as nossas limitações para fazermos arte” inspirando-se no álbum The Melody at Night, with You, de Keith Jarrett, composto durante um período de doença. Para o músico e compositor português, a nossa vulnerabilidade pode ser transformada em matéria artística.
Na habitual dinâmica da Caixa do Desejo Filosófico, objeto que mais suscita o desejo filosófico de Júlio Resende é uma simples peça de dominó. A razão? Vamos mantê-la em suspance. Mas tal como no jazz, sejamos inpirados a viver uma vida que nos exige estar presentes e sempre criar algo novo.
Vemo-nos na próxima semana

Podcast

“O Estado fez da Insegurança o seu negócio mais rentável, a sua arma mais poderosa” argumenta Donatella Di Cesare, filósofa e ensaísta italiana

Neste episódio, gravado no ESPANTO – Festival Internacional de Filosofia, em 2025, a filósofa e ensaísta italiana, Donatella Di Cesare, aborda o medo focando-se nas dinâmicas de poder. Diz-nos que “O medo é o grande recurso das autoridades públicas, partidos e organizações numa época em que as grandes ideias parecem ter perdido credibilidade.” Mais do que um sentimento individual, o medo transforma-se numa atmosfera coletiva, tornando-se a lente pela qual as pessoas percecionam o mundo e a sua própria vulnerabilidade. Guerras, alterações climáticas, desertificação, precariedade laboral, instabilidade económica e crises migratórias são apenas algumas das ameaças que Donatella Di Cesare menciona como ameaças que alimentam um sentimento permanente de insegurança. Neste contexto, a segurança, passa a ocupar um lugar central no discurso político, surgindo o chamado Estado de segurança, que promete proteção contra ameaças presentes e futuras. Contudo, essas promessas revelam-se falíveis. Enquanto promete proteger os cidadãos de determinados riscos, o Estado expõe-nos a outros, justificando essas escolhas com base nas leis da Economia ou da História. Di Cesare prefere denominar este fenómeno por fobocracia — do grego phobos(medo) e kratos (poder) —, ou seja, o governo do medo, onde o Estado se aproveita a difusão da ansiedade, do fomento do ódio, do aumento da incerteza e da desconfiança, procurando fortalecer o seu poder político, apropriando-se do medo como um dos seus recursos mais poderosos. O poder executivo prevalece em detrimento dos poderes legislativo e judicial, é a isso que assistimo através da progressiva desautorização do Parlamento, diz-nos Donatella Di Cesare. Outro conceito que a filosofa abora é o do Estado de Exceção/Emergência e a sua função de enfraquecimento dos mecanismos democráticos. A pandemia em 2020 é abordada como um momento de mudança de época, sendo referido também o caso de Viktor Orbán (ex-Primeiro-Ministro da Hungria) como exemplo da intrumentalização política. Também o trumpismo é apontado como uma manifestação desta lógica de governo assente no medo. Donatella Di Cesare argumenta que as elites ocidentais mantêm a capacidade de decidir sobre a guerra através de uma suspensão técnica da democracia e de um reforço da soberania do poder executivo. Talvez o soberado absoluto do passado monárquico não tenha completamento desaparecido, mas apenas se tenha transformado e evoluído com base em com novos recursos militares, tecnológicos e financeiros.

Podcast

“Não tenho dúvidas que a minha maior inquietação é querer saber quem sou” José Luís Peixoto, Escritor

Neste episódio, José Luis Peixoto, escritor, fala-nos da sua grande inquietação que é a de não saber quem é: Quem sou eu é a pergunta mais misteriosa e que leva o escritor a dedicar-se à escrita de uma forma por vezes obsessiva, com impacto até negativo na sua saúde. Com ele percorremos a literatura como quem sobe uma montanha: a cada novo olhar o mundo transforma-se e revela uma perspetiva diferente. Entre filosofia, ficção e música, refletimos sobre a escrita como uma viagem de investigação, onde cada página é uma porta para novas perguntas e cada livro guarda infinitas gavetas de pensamento à espera de serem abertas.

José Luis Peixoto ajuda-nos a perceber o equilíbrio delicado entre razão e emoção, a arquitetura invisível que sustenta um texto e como perante incapacidade de algo chegar ao seu fim de forma resolvida e completa.
Numa conversa profundamente humana, regressamos à pergunta que sustenta todas as outras: quem sou eu? Talvez o “eu” só exista no encontro com o outro, e a identidade constrói-se na relação com esse outro; compreender o mundo começa, inevitavelmente, por compreender o lugar a partir do qual o observamos. José Luis Peixoto deixa-nos uma mensagem: contemplar o mundo a partir da nossa lente não é uma perspetiva egocêntrica, mas de autoconsciência.
Da dor à beleza, da obsessão à paz que chega quando a última palavra encontra o seu lugar no papel. Este é um episódio que navega as profundidades do ato de escrever, de pensar e de viver. Uma verdadeira reflexão sobre a força das múltiplas interpretações, sobre a incapacidade de lidar com os absolutos e sobre a urgência de resistir aos discursos simplificadores de um mundo cada vez mais polarizado. Seria inevitável falar de redes sociais e da simplificação da apreciação que resulta de um gosto ou de um não gosto.
Para o nosso convidado talvez a escrita nunca tenha sido o destino. Sempre foi a viagem. E a cura se encontra no último ponto final.

Podcast

Como enfrentar os nossos medos? Bernat Castany Prado, filósofo, explica tudo

Neste episódio, o filósofo catalão, Bernat Castany Prado, fala como o medo é um dos obstáculos fundamentais na construção de uma vida filosófica, pois reduz a nossa capacidade de conhecer e de nos conhecermos a nós próprios; de nos abrirmos e de nos desdobrarmos no mundo; de organizarmos uma existência em que as paixões alegres dominam as paixões tristes e de convivermos em liberdade com os outros. Não é, pois, surpreendente que, ao longo da história, muitos filósofos, como Epicuro, Lucrécio, Montaigne, Spinoza, D’Holbach, Arendt ou Nussbaum, tenham defendido ideias e perspetivas que substituem as que alimentam os nossos medos e concebido práticas filosófico-literárias para aumentar o nosso valor. Neste episódio, são expostas essas ideias, essas perspetivas e essas práticas, com o objetivo de as voltar a pôr a funcionar.

Podcast

“Lisístrata tem um plano que é todas as mulheres se absterem das relações sexuais forçando os homens a fazerem a paz”. Explica João Constâncio, filósofo

Neste episódio, junta-se a nós um filósofo, também professor catedrático de Filosofia. Na semana do Espanto – Festival Internacional de Filosofia, onde o tema em debate é o desejo, não poderíamos deixar de conversar com João Constâncio, autor de Três Discursos sobre Eros – Meditação sobre o Fedro de Platão, e também tradutor e co-autorda introdução de Lisístrata, de Aristófanes, obra sobre a qual também conversamos.
Estas duas obras são clássicas incontornáveis da Filosofia que durante este episódio nos ajudam a olhar para o desejo a partir de um ponto de vista muito especial, inclusivamente, político.
O desejo erótico e a forma arrebatadora como a paixão se instala em nós e nos leva à loucura foi um tema em debate. João Constâncio, suportando-se nos Três Discursos de Eros, frisa: “é a ideia de que quando se é atacado por Eros, tudo aquilo que antes se valorizava passa a parecer algo que não parece nada, que não vale nada, por exemplo, o lar, os pais, mãe, irmãos, os amigos, a fortuna que se tem ou não se tem, tudo isso de repente não tem importância nenhuma. É um estado de loucura.”
Sobre a obra Lísistrata de Aristófanes quisemos conhecer melhor o plano da personagem principal para terminar com a guerra do Peloponeso porque foi, na verdade,um plano de génio, e em relação ao plano João Constâncio disse: “a ideia é muito famosa, e é a ideia de as mulheres se negarem sexualmente aos maridos até que todos os homens façam a paz entre si.” Para a época, ou seja 411 a.C., e segundo o nosso convidado, talvez “seja prudente evitar chamar feminista, mas eu creio que sem dúvida proto feminista. Um discurso que inclui a defesa de que não há razão para as mulheres não falarem em público, não há razão para as mulheres não governarem a cidade, não governarem as finanças da cidade. É um discurso que implica todo um elogio da sensatez das mulheres e mesmo a ideia de que elas nunca fariam a guerra.”
O que acontece nesta obra de Aristófanes, de acordo com João Constâncio é “uma crítica do poder dos homens, uma crítica, no fundo, da estrutura normativa, da polis grega, que é uma estrutura desigual e que a peça representa claramente como injusta. Isto é uma estrutura na qual os homens governam e as mulheres obedecem e tratam da casa e tratam do nascimento e da morte, basicamente, na esfera do privado”.
Houve ainda tempo para falar de inteligência artificial (IA) uma vez que ela vem espicaçar os nossos desejos mais fúteis. João Constâncio vê claramente uma relação entre a IA e o desejo “A relação que eu vejo entre os dois temas é bastante profunda. Podemos falar do desejo, de um ponto de vista filosófico, talvez a dois níveis diferentes: temos o tipo de reflexão que eu acho que prioritariamente vos está a interessar, o desejo tal como se manifesta quando estamos apaixonados, o desejo no amor sexual, é, portanto, o desejo nesse sentido mais estrito. Mas, num segundo nível, é o de um desejo que não tem necessariamente essa particularização. Por exemplo, alguns filósofos pensam no desejo de viver, o próprio desejo de estar vivo numa relação com o mundo, o próprio desejo pelo mundo, um sentimento de encantamento em relação ao mundo. Talvez genericamente o desejo seja o desejo de beleza, é assim que Platão, por exemplo, pensa nele.”
João Constâncio considera que com a inteligência artificial estamos a abdicar de tudo o que é humano, “de sermos nós a fazer arte, sermos nós a pensar, sermos nós a escrever, e entregar isso às máquinas, a uma realidade a que nós temos acesso através de um olhar objetificante, que desfaz o nosso olhar humano, o nosso olhar valorativo, o olhar com que sentimos, com que encontramos beleza no mundo.” O filósofo vê nesta forma objectificante de relação com o mundo e com os outros, uma desumanização que considera ser parecido com o que “está em causa na ascensão dos fascismos, no genocídio, na forma como a guerra se voltou a banalizar e a proliferar nos nossos dias.”
Finamente, era importante perceber – tal como faz Sócrates ao dirigir-se a Fedro, nos Três Discursos de Eros: “De onde vens e para onde vais?”, João Constâncio? A resposta é bela porque o nosso convidado veio, está e fica na a Filosofia, ou seja, há locais de onde nunca se pode sair: “eu entrei para o curso de Filosofia quando tinha 18 anos. Entrei porque queria muito entrar, porque queria muito estudar Filosofia. E aqui estou passado muitos, muitos anos. Nunca deixei de fazer isso. E é isso que eu faço. Conto já não ir para outro lugar, senão este mesmo onde tenho estado.”
Neste episódio não poderia faltar a Caixa dos Desejos filosóficos e o nosso convidado abdicou de muitos objetos: lâmpada, gravata, chocolate, mola de roupa e até uma pastilha para a máquina de lavar loiça, para ficar com uma andorinha. As razões pelas quais o fez são belas e profundamente filosóficas.

Podcast

“Sempre que há uma coisa que exige uma grande ordem, a minha tendência é logo revoltar-me e desarrumar-me.”

Neste episódio, quando conversamos com Madalena Sá Fernandes, o seu novo livro ainda não estava nas livrarias, mas já falamos sobre ele, o Sótão que segundo a autora “É, mais uma vez, matéria muito biográfica”, embora tenha já colocado um “pezinho” no ensaio e também na filosofia.
Foi uma conversa que percorreu a forma como está na vida e que se reflete no que escreve, confessando-nos: “Sim, eu sou muito desarrumada, em todos os sentidos. E a minha escrita acho que também é desarrumada. Aliás, agora no novo livro é todo mais ou menos em fragmentos. Assim como o Leme também já é de certa maneira. Eu acho que é a minha maneira de recusa da imposição de uma ordem, que no Leme está muito patente.”
Madalena Sá Fernandes recusa a imposição de uma ordem, sempre que isso acontece procura o lado inverso, apesar dessa desarrumação, dessa forma fragmentária de escrever, há unidade nos seus livros e as histórias que conta não perdem uma certa tensão unificadora.
Revelou-nos que faz psicoterapia e que se identifica com o método de Freud.
A resolução de problemas para a nossa convidada não é posta da forma habitual, ou seja, como o encerrar de capítulos ou colocar pedras nos assuntos, prefere, pelo contrário, segundo a própria: “elaborar, ou seja, acho que resolver, dizendo agora está resolvido, isso não acontece bem, mesmo com o Leme que foi uma grande elaboração, foi uma grande narração e pensamento sobre memórias, não ficou resolvido, não é uma coisa que arrumo na prateleira, literalmente, e, continua: “eu acho que falando de questões de violência doméstica e abrindo só um bocadinho da minha biografia, eu acho que até é um estranho familiar que está sempre a voltar ou seja, é uma coisa que não está mesmo nunca resolvida, são ondas, que estão sempre a vir.” A ideia de elaboração e não de resolução fica clara como opção de vida e também instrumento de escrita, suporte da sua escrita de pendor biográfico.
Durante a conversa, era inevitável falar sobre a sua atividade de escritora e a forma como a desempenha. Madalena Sá Fernandes não gosta de excesso de sentimentalismo e procurar sempre aparar esses excessos, isto porque não quer forçar ninguém a sentir, e confessa: “eu quero escrever, não pôr os violinos a tocar atrás, não é preciso, para mim é narrar de forma seca.” É esta narração de forma seca que podemos confirmar no Leme e agora no seu mais recente livro Sótão.
Neste episódio, houve ainda tempo para duas dinâmicas que levaram a nossa convidada a afirmar que retiraria Donald Trump da caverna de Platão duvidando que seja possível que isso possa acontecer, ou seja, a caverna, lugar da ignorância é um espaço de onde dificilmente sairá o atual Presidente dos EUA. David Erlich, co-anfitrião deste podcast, complementa dizendo que se “lermos as passagens sobre a alma tiranizada em Platão, vemos uma espécie de retrato psicofilosófico do Donald Trump”.
Por fim, perante uma sequência de escolhas entre objetos que Madalena Sá Fernandes teve de fazer, justificando-as, foi escolhendo o sal em detrimento de tudo o que lhe foi mostrado e, finalmente, escolhe, um búzio e abdica do sal, revelando várias razões para o fazer, mas entendendo aquele como uma imagem forte de abrigo, de casa, diríamos nós agora, de Sotão.

Scroll to Top