Neste episódio, quando conversamos com Madalena Sá Fernandes, o seu novo livro ainda não estava nas livrarias, mas já falamos sobre ele, o Sótão que segundo a autora “É, mais uma vez, matéria muito biográfica”, embora tenha já colocado um “pezinho” no ensaio e também na filosofia.
Foi uma conversa que percorreu a forma como está na vida e que se reflete no que escreve, confessando-nos: “Sim, eu sou muito desarrumada, em todos os sentidos. E a minha escrita acho que também é desarrumada. Aliás, agora no novo livro é todo mais ou menos em fragmentos. Assim como o Leme também já é de certa maneira. Eu acho que é a minha maneira de recusa da imposição de uma ordem, que no Leme está muito patente.”
Madalena Sá Fernandes recusa a imposição de uma ordem, sempre que isso acontece procura o lado inverso, apesar dessa desarrumação, dessa forma fragmentária de escrever, há unidade nos seus livros e as histórias que conta não perdem uma certa tensão unificadora.
Revelou-nos que faz psicoterapia e que se identifica com o método de Freud.
A resolução de problemas para a nossa convidada não é posta da forma habitual, ou seja, como o encerrar de capítulos ou colocar pedras nos assuntos, prefere, pelo contrário, segundo a própria: “elaborar, ou seja, acho que resolver, dizendo agora está resolvido, isso não acontece bem, mesmo com o Leme que foi uma grande elaboração, foi uma grande narração e pensamento sobre memórias, não ficou resolvido, não é uma coisa que arrumo na prateleira, literalmente, e, continua: “eu acho que falando de questões de violência doméstica e abrindo só um bocadinho da minha biografia, eu acho que até é um estranho familiar que está sempre a voltar ou seja, é uma coisa que não está mesmo nunca resolvida, são ondas, que estão sempre a vir.” A ideia de elaboração e não de resolução fica clara como opção de vida e também instrumento de escrita, suporte da sua escrita de pendor biográfico.
Durante a conversa, era inevitável falar sobre a sua atividade de escritora e a forma como a desempenha. Madalena Sá Fernandes não gosta de excesso de sentimentalismo e procurar sempre aparar esses excessos, isto porque não quer forçar ninguém a sentir, e confessa: “eu quero escrever, não pôr os violinos a tocar atrás, não é preciso, para mim é narrar de forma seca.” É esta narração de forma seca que podemos confirmar no Leme e agora no seu mais recente livro Sótão.
Neste episódio, houve ainda tempo para duas dinâmicas que levaram a nossa convidada a afirmar que retiraria Donald Trump da caverna de Platão duvidando que seja possível que isso possa acontecer, ou seja, a caverna, lugar da ignorância é um espaço de onde dificilmente sairá o atual Presidente dos EUA. David Erlich, co-anfitrião deste podcast, complementa dizendo que se “lermos as passagens sobre a alma tiranizada em Platão, vemos uma espécie de retrato psicofilosófico do Donald Trump”.
Por fim, perante uma sequência de escolhas entre objetos que Madalena Sá Fernandes teve de fazer, justificando-as, foi escolhendo o sal em detrimento de tudo o que lhe foi mostrado e, finalmente, escolhe, um búzio e abdica do sal, revelando várias razões para o fazer, mas entendendo aquele como uma imagem forte de abrigo, de casa, diríamos nós agora, de Sotão.