Neste episódio, gravado no ESPANTO – Festival Internacional de Filosofia, em 2025, Daniel Innerarity, filósofo, reflete sobre o medo como um fator inerente da condição humana. O medo não é uma característica exclusiva da nossa era: os seus objetos podem mudar ao longo da história, mas o medo permanece. Ao reformular um conhecido provérbio, o Daniel Innerarity afirma: “Diz-me de que tens medo, e eu dir-te-ei quem és”, sublinhando que são os nossos medos que nos revelam.
Innerarity analisa também a relação entre medo e segurança, recorrendo às ideias do sociólogo alemão Niklas Luhmann, explorando como a sensação de segurança depende, em grande medida, das expectativas que criamos: quanto mais elevadas forem essas expectativas, maior será a perceção de insegurança. Paradoxalmente, o progresso aumenta o desejo de uma proteção ainda maior. À medida que a sociedade melhora, tem tendência para esquecer as dificuldades do passado, perdendo a memória das conquistas alcançadas e tornando-se mais exigente perante os problemas que persistem.
Esta ideia aproxima-se da reflexão de Alexis de Tocqueville “Quanto mais residual é um fenómeno negativo, mais intolerável ele se torna.” O progresso, em vez de eliminar a insatisfação, o que faz é redefinir os nossos padrões de avaliação da realidade.
O filósofo aborda ainda a transformação da identidade nas sociedades contemporâneas, marcada pela passagem de uma identidade convencional para uma identidade pós-convencional. Hoje, a biografia de cada indivíduo é menos determinada pelo destino e mais pelas decisões que toma. No entanto, esta liberdade traz consigo um novo peso: já não existe apenas o direito de decidir, mas uma verdadeira obrigação de escolher, gerando ansiedade e responsabilidade permanentes.
Daniel Innerarity identifica dois desafios centrais do presente: o medo de perder a democracia e a necessidade de compreender os medos dos outros. Recuperando uma reflexão de Charles Taylor, faz um apelo: “não podemos fazer com que o sonho de uns seja o pesadelo de outros”, defendendo que uma sociedade democrática exige a conciliação de perspetivas distintas.
Nas palavras do nosso convidado “Se colocarmos as coisas de forma tão dicotómica, inevitavelmente falharemos e, certamente, não evitaremos o medo.”