«Pensar é o ato de maior liberdade que nos foi concedido», defende Catarina Barosa, fundadora do ESPANTO

Pensar não deve ser um privilégio reservado à academia nem aos especialistas. É com essa convicção que Catarina Barosa, fundadora do Festival Internacional de Filosofia ESPANTO, prepara a segunda edição do evento, que começa já amanhã em Cascais. Esta edição traz mais atividades, novos formatos e uma programação que procura aproximar a Filosofia do quotidiano das pessoas.

Antes do programa principal, que decorre entre 26 e 28 de junho, a Filosofia vai chegar aos bairros de habitação social do concelho nos dias 13 e 14 de junho, com o fito de criar espaços de encontro, reflexão e diálogo para todos. O tema escolhido para 2026 é o Desejo, uma palavra que, segundo Catarina Barosa, permite convocar diferentes públicos para uma conversa que começa na emoção, mas não dispensa o pensamento.

Qual foi o fio condutor desta edição e porquê a escolha do Desejo? 

A escolha do tema das edições do Espanto resulta sempre de uma primeira reunião entre todos os curadores do festival, depois de identificarmos alguns temas possíveis, consultamos o grupo de pensadores e, a seguir, recolhemos uma avaliação junto das nossas bases de dados de subscritores e dos participantes do Festival. O Desejo foi um dos temas com mais adesão e, para a curadoria deste festival, o grande objetivo é trazer para o debate público temas que sejam transversais a todos e não apenas conceitos filosóficos. Queremos que as pessoas se identifiquem de imediato com uma palavra.

Tal como o Medo, no ano passado, foi escolhido por ter esta sustentação humana, e talvez o Desejo a tenha. Escolher um sentimento ou uma emoção acaba também por ser um desafio para os próprios filósofos, uma vez que o ponto de partida não é de ordem racional, mas sensitiva.

Sente que o festival já encontrou uma identidade própria ou ainda está em construção?

Estamos no segundo ano e aprendemos bastante em doze meses de existência. Estamos ainda na fase de testes de formatos, públicos, abordagens, mas alguns aspetos começam a ganhar raízes e a alimentar a tal identidade; podemos falar de ter formatos de proximidade com os públicos, formatos transversais em termos etários, momentos em espaços menos convencionais como acontece com a Filosofia nos bairros sociais do Concelho de Cascais; outro aspeto que marca já a identidade do festival é juntar outras dimensões, nomeadamente as artísticas. Este ano juntamos teatro, música e poesia.

O facto de termos um grupo de curadores reincidentes faz parte da identidade do festival, trazendo participações em formatos distintos de uns anos para os outros. Este ano temos filósofos curadores a moderar conversas o que permite que a Filosofia cumpra o seu papel de perguntadora.

O que distingue esta segunda edição do festival de Filosofia em relação à primeira? 

Este ano temos mais um dia do que no ano passado que vamos dedicar a lições de Filosofia e criamos uma noite dedicada ao tema do Desejo com enfoque na sua dimensão social e política; acrescentamos o Teatro com uma apresentação de um excerto de Hamlet seguida de uma conversa sobre o desejo neste texto de William Shakespeare; teremos ainda um espaço para escrita, leitura e outro para meditação; e procurando a tal proximidade este ano teremos o Espanto OFF.

Este ano decorrerão, entre os dias 26 e 28 de junho, encontros à margem das atividades programadas, ou seja, a organização vai lançar uma agenda pública para as pessoas poderem marcar livremente um encontro com os filósofos que fizerem parte desta iniciativa. Vamos ter três locais reservados, durante 8 horas por dia, com o conforto necessário para receber o Filósofo e no máximo três pessoas, em simultâneo, durante uma hora; As pessoas devem inscrever-se antecipadamente e indicar um tópico ou pergunta que gostassem de fazer ao Filósofo.

Teremos também visitas guiadas à exposição de pintura da artista Paula Rego, sobre o Desejo na sua obra pictórica. Ou seja, este ano o número de atividades paralelas aumentou significativamente, bem como o número de palestras de filosofia.

A Filosofia, hoje, ainda procura respostas ou sobrevive fazendo melhores perguntas?

O trabalho da Filosofia é questionar e será sempre esse. Ou seja, é através da Filosofia que se abrem os caminhos que muitas outras disciplinas podem percorrer. A Filosofia responde e pergunta ad infinitum. Sendo a disciplina que ama o conhecimento, é a ela que cabe não desistir de pensar, perguntar, responder, investigar, analisar, interpretar, para que a relação com mundo, com os outros e com o próprio ‘eu’ se afirme como uma relação humana, inacabada de aperfeiçoamento continuo.

Quando o pensamento acontece em público, ele continua livre ou já se torna performance? 

O pensamento é livre por natureza. Todas as prisões, incluindo as performativas, são formas de captura com fins que podem ser certos ou errados. O facto de o pensamento acontecer em público significa apenas que ele está a ser partilhado com os outros e nessa medida precisa de ser estruturado, sistematizado e expresso de forma compreensível. Quando falamos em performance estamos a acrescentar elementos, ou seja, a performance é apenas instrumental, relativamente ao pensamento que é essencial.

O que pode ser preocupante é o sujeito, o ‘eu’ que pensa, não ter consciência da forma como o seu pensamento pode ser condicionado, manipulado, padronizado, massificado, diluindo-o, instrumentalizando-o para o transformar numa peça de um jogo performativo ao serviço de alguém ou alguma coisa. Vemos isso a acontecer com os movimentos totalitários de extrema-direita, vemos isso a acontecer com os movimentos de adesão a influencers e a modos e estilos de vida de pendor mais fundamentalista. O sujeito nestas situações não se pergunta: quem sou eu? Porque gosto ou faço isto?

“Pensar é o ato de maior liberdade que nos foi concedido. Não o usar livremente é a maior ingratidão para com a humanidade.” 

O que é hoje o ‘espanto’: um momento de lucidez ou apenas uma interrupção breve da distração? 

O espanto, o assombro, é o princípio da Filosofia. É a capacidade humana de olhar e ver de forma curiosa, é através dele que se ativa o pensamento criativo, científico, artístico, etc. Ele é chave para abrir a imensidão e para nos encontramos no meio de uma realidade sem medida.

O que acontece quando pessoas se juntam para pensar em conjunto?

Pensar em conjunto é um ato de amor e de reconhecimento do outro. É um encontro de singularidades, a partir do qual a realidade pode receber novos contornos pela diversidade dos pontos de vista, formas de sentir, maneiras de enfrentar e, tudo conjugado, pode resultar numa miríade de realidades que nos podem deixar espantados.

No fim de tudo isto, o que espera que fique: conhecimento, dúvida ou inquietação?

Espero sinceramente que fique a tomada de consciência da importância de pensar de forma livre e implicada. Fique a vontade de não entregar o ouro ao ‘bandido’. Não entregar a nossa mais incrível capacidade a uma dimensão artificial e não humana. Que fique a urgência de perguntar, a urgência de pensar sobre os próprios pensamentos, a urgência de se inquietar com o estado atual do mundo e dos que nos rodeiam. Temos de começar por algum lado, a Filosofia é o lado certo.

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