“Lisístrata tem um plano: que todas as mulheres se abstenham das relações sexuais forçando os homens a fazerem a paz”

Na semana do Espanto – Festival Internacional de Filosofia, onde o tema em debate é o desejo, não poderíamos deixar de conversar com João Constâncio, autor de Três Discursos sobre Eros – Meditação sobre o Fedro de Platão, e também tradutor e co-autor da introdução de Lisístrata, de Aristófanes, obra sobre a qual também conversamos

Estas duas obras são clássicas incontornáveis da Filosofia que durante este episódio nos ajudam a olhar para o desejo a partir de um ponto de vista muito especial, inclusivamente, político.

O desejo erótico e a forma arrebatadora como a paixão se instala em nós e nos leva à loucura foi um tema em debate. João Constâncio, suportando-se nos Três Discursos de Eros, frisa: “é a ideia de que quando se é atacado por Eros, tudo aquilo que antes se valorizava passa a parecer algo que não parece nada, que não vale nada, por exemplo, o lar, os pais, mãe, irmãos, os amigos, a fortuna que se tem ou não se tem, tudo isso de repente não tem importância nenhuma. É um estado de loucura.”

Sobre a obra Lísistrata de Aristófanes quisemos conhecer melhor o plano da personagem principal para terminar com a guerra do Peloponeso porque foi, na verdade, um plano de génio, e em relação ao plano João Constâncio disse: “A ideia é muito famosa, e é a ideia de as mulheres se negarem sexualmente aos maridos até que todos os homens façam a paz entre si”. Para a época, ou seja 411 a.C., e segundo o nosso convidado, talvez “seja prudente evitar chamar feminista, mas eu creio que sem dúvida proto feminista. Um discurso que inclui a defesa de que não há razão para as mulheres não falarem em público, não há razão para as mulheres não governarem a cidade, não governarem as finanças da cidade. É um discurso que implica todo um elogio da sensatez das mulheres e mesmo a ideia de que elas nunca fariam a guerra”.

O que acontece nesta obra de Aristófanes, de acordo com João Constâncio é “uma crítica do poder dos homens, uma crítica, no fundo, da estrutura normativa, da polis grega, que é uma estrutura desigual e que a peça representa claramente como injusta. Isto é uma estrutura na qual os homens governam e as mulheres obedecem e tratam da casa e tratam do nascimento e da morte, basicamente, na esfera do privado”.

Houve ainda tempo para falar de inteligência artificial (IA) uma vez que ela vem espicaçar os nossos desejos mais fúteis. João Constâncio vê claramente uma relação entre a IA e o desejo “A relação que eu vejo entre os dois temas é bastante profunda. Podemos falar do desejo, de um ponto de vista filosófico, talvez a dois níveis diferentes: temos o tipo de reflexão que eu acho que prioritariamente vos está a interessar, o desejo tal como se manifesta quando estamos apaixonados, o desejo no amor sexual, é, portanto, o desejo nesse sentido mais estrito. Mas, num segundo nível, é o de um desejo que não tem necessariamente essa particularização. Por exemplo, alguns filósofos pensam no desejo de viver, o próprio desejo de estar vivo numa relação com o mundo, o próprio desejo pelo mundo, um sentimento de encantamento em relação ao mundo. Talvez genericamente o desejo seja o desejo de beleza, é assim que Platão, por exemplo, pensa nele”.

João Constâncio considera que com a inteligência artificial estamos a abdicar de tudo o que é humano, “de sermos nós a fazer arte, sermos nós a pensar, sermos nós a escrever, e entregar isso às máquinas, a uma realidade a que nós temos acesso através de um olhar objetificante, que desfaz o nosso olhar humano, o nosso olhar valorativo, o olhar com que sentimos, com que encontramos beleza no mundo.” O filósofo vê nesta forma objetificante de relação com o mundo e com os outros, uma desumanização que considera ser parecido com o que “está em causa na ascensão dos fascismos, no genocídio, na forma como a guerra se voltou a banalizar e a proliferar nos nossos dias”.

Finamente, era importante perceber – tal como faz Sócrates ao dirigir-se a Fedro, nos Três Discursos de Eros: “De onde vens e para onde vais?”, João Constâncio? A resposta é bela porque o nosso convidado veio, está e fica na a Filosofia, ou seja, há locais de onde nunca se pode sair: “eu entrei para o curso de Filosofia quando tinha 18 anos. Entrei porque queria muito entrar, porque queria muito estudar Filosofia. E aqui estou passado muitos, muitos anos. Nunca deixei de fazer isso. E é isso que eu faço. Conto já não ir para outro lugar, senão este mesmo onde tenho estado.”

Neste episódio não poderia faltar a Caixa dos Desejos filosóficos e o nosso convidado abdicou de muitos objetos: lâmpada, gravata, chocolate, mola de roupa e até uma pastilha para a máquina de lavar loiça, para ficar com uma andorinha. As razões pelas quais o fez são belas e profundamente filosóficas.

João Constâncio é professor catedrático do Departamento de Filosofia da Universidade Nova de Lisboa (NOVA FCSH), onde se doutorou, em 2005, com uma dissertação sobre imagens e conceções da vida humana em Platão, e onde exerce os cargos de diretor do Instituto de Filosofia da Nova (IFILNOVA) e coordenador do Doutoramento em Filosofia. É autor do livro Arte e Niilismo: Nietzsche e o enigma do mundo (Tinta-da-china, 2013), bem como coorganizador de cinco livros sobre Nietzsche — incluindo, com Maria João Mayer Branco e Bartholomew Ryan, Nietzsche and the Problem of Subjectivity (Walter de Gruyter, 2015). Tem escrito e lecionado igualmente sobre questões fundamentais da Estética, da Antropologia Filosófica e da Filosofia da História nas obras de Platão, Kant, Hegel, Schopenhauer e Heidegger.

O Princípio da Inquietação é um podcast onde pensar é um verbo que se exercita a sós e em conversa. Filósofos nacionais e internacionais refletem em voz alta sobre o medo, enquanto Catarina G. Barosa, fundadora do Festival Internacional de Filosofia, Espanto, e David Erlich, professor e escritor, recebem convidados de várias áreas para diálogos sem rede. Aqui, as certezas são questionadas e a dúvida ganha estatuto de virtude. O objetivo é praticar a nobre arte de pensar, mesmo que isso conduza não a respostas, mas a novas perguntas. 

Todas as quintas-feiras um novo episódio, uma nova inquietação.

A produção, edição áudio e vídeo deste podcast é assegurada pela Tale House, com identidade sonora a partir da interpretação do músico e produtor Pedro Luís, da obra Inquietação, da autoria de José Mário Branco, inspirada na versão interpretada pelo grupo A Naifa. A capa é de Tiago Pereira Santos, com fotografia de Matilde Fieschi e logo do Expresso e do Festival Espanto. A coordenação está a cargo de Joana Beleza e a direção é de João Vieira Pereira.

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