
Cynthia Cruz obteve o seu doutoramento na European Graduate School, onde a sua tese abordou Hegel e a loucura. O seu projeto atual explora a Revolução Francesa e a sua relação com a mania — um termo que, originalmente, era sinónimo de loucura. Foi galardoada com vários prémios, incluindo uma bolsa Hodder da Universidade de Princeton e um Prémio Guggenheim, e lecionou, entre outras instituições, na Universidade de Columbia, no Sarah Lawrence College e na Universidade de Massachusetts-Amherst. Cruz é atualmente professora assistente convidada na Universidade de Notre Dame.
EDIÇÃO 2026 – DESEJO
26.06 A Noite do Desejo | Cidadela de Cascais
28.06 A Filosofia na Casa das Histórias Paula Rego
O Desejo Como Força Unificadora
«A Melancolia da Classe propôs-se tornar visível o que o capitalismo tornara invisível: o antagonismo de classes, o sintoma que está no cerne do seu sistema. No entanto, permanecer suspenso neste conhecimento — na raiva não metabolizada que a melancolia encobre — não é suficiente. Fazê-lo arrisca-se a curto-circuitar o uso construtivo desta energia libidinal, deslocando-a para uma destruição sem sentido ou para o próprio desejo capitalista: o desejo pelo capitalismo que, embora nos vincule a todos a ele, deixa cada um de nós alienado e des-subjetivado.
Nesta palestra, defendo que o desejo pode vincular sujeitos alienados uns aos outros e, ao fazê-lo, colocar essa suspensão em prática. Através dessa ligação, cada sujeito — ao negar o que não é — torna-se o que já é inerentemente. Para desenvolver este argumento, examino o desejo através de Lacan e Hegel. Para Hegel, o desejo é o impulso do espírito para metabolizar a contradição: negar o que não é, a fim de libertar o que é. Para Lacan, o desejo não está ligado a um objeto, mas, tal como em Hegel, opera teleologicamente — embora sem um telos fixo. Como argumenta Lacan, o desejo, enquanto força vinculativa, pode «reunir um número indefinido de sujeitos num ideal comum», unindo-os em torno de um único objeto definido pelo que cada um se recusa a aceitar. Esse objeto pode assumir a forma de um ódio partilhado — que pode muito bem ser um ódio partilhado pelo capitalismo.»