O Princípio da Inquietação

Filosoficamente falando, o Princípio da Inquietação é um podcast onde pensar é um verbo que se exercita de modo individual e também se pratica em grupo. São momentos solitários de dezenas de filósofos nacionais e internacionais que pensam em voz alta sobre o medo e também são momentos a três onde Catarina G. Barosa, fundadora do Festival Internacional de Filosofia, Espanto, e David Erlich, professor e escritor, convidam personalidades de diferentes áreas para uma conversa sem rede. Aqui, as certezas são questionadas e as dúvidas ganham estatuto de virtude. O objetivo? Exercitar a nobre arte de pensar. Mesmo que o caminho não leve a conclusões, mas só a novas perguntas. Até porque a dúvida também pode ser um princípio, uma inquietação.

O Princípio da Inquietação

Ep. 7

“Sempre que há uma coisa que exige uma grande ordem, a minha tendência é logo revoltar-me e desarrumar-me.”

Neste episódio, quando conversamos com Madalena Sá Fernandes, o seu novo livro ainda não estava nas livrarias, mas já falamos sobre ele, o Sótão que segundo a autora “É, mais uma vez, matéria muito biográfica”, embora tenha já colocado um “pezinho” no ensaio e também na filosofia.
Foi uma conversa que percorreu a forma como está na vida e que se reflete no que escreve, confessando-nos: “Sim, eu sou muito desarrumada, em todos os sentidos. E a minha escrita acho que também é desarrumada. Aliás, agora no novo livro é todo mais ou menos em fragmentos. Assim como o Leme também já é de certa maneira. Eu acho que é a minha maneira de recusa da imposição de uma ordem, que no Leme está muito patente.”
Madalena Sá Fernandes recusa a imposição de uma ordem, sempre que isso acontece procura o lado inverso, apesar dessa desarrumação, dessa forma fragmentária de escrever, há unidade nos seus livros e as histórias que conta não perdem uma certa tensão unificadora.
Revelou-nos que faz psicoterapia e que se identifica com o método de Freud.
A resolução de problemas para a nossa convidada não é posta da forma habitual, ou seja, como o encerrar de capítulos ou colocar pedras nos assuntos, prefere, pelo contrário, segundo a própria: “elaborar, ou seja, acho que resolver, dizendo agora está resolvido, isso não acontece bem, mesmo com o Leme que foi uma grande elaboração, foi uma grande narração e pensamento sobre memórias, não ficou resolvido, não é uma coisa que arrumo na prateleira, literalmente, e, continua: “eu acho que falando de questões de violência doméstica e abrindo só um bocadinho da minha biografia, eu acho que até é um estranho familiar que está sempre a voltar ou seja, é uma coisa que não está mesmo nunca resolvida, são ondas, que estão sempre a vir.” A ideia de elaboração e não de resolução fica clara como opção de vida e também instrumento de escrita, suporte da sua escrita de pendor biográfico.
Durante a conversa, era inevitável falar sobre a sua atividade de escritora e a forma como a desempenha. Madalena Sá Fernandes não gosta de excesso de sentimentalismo e procurar sempre aparar esses excessos, isto porque não quer forçar ninguém a sentir, e confessa: “eu quero escrever, não pôr os violinos a tocar atrás, não é preciso, para mim é narrar de forma seca.” É esta narração de forma seca que podemos confirmar no Leme e agora no seu mais recente livro Sótão.
Neste episódio, houve ainda tempo para duas dinâmicas que levaram a nossa convidada a afirmar que retiraria Donald Trump da caverna de Platão duvidando que seja possível que isso possa acontecer, ou seja, a caverna, lugar da ignorância é um espaço de onde dificilmente sairá o atual Presidente dos EUA. David Erlich, co-anfitrião deste podcast, complementa dizendo que se “lermos as passagens sobre a alma tiranizada em Platão, vemos uma espécie de retrato psicofilosófico do Donald Trump”.
Por fim, perante uma sequência de escolhas entre objetos que Madalena Sá Fernandes teve de fazer, justificando-as, foi escolhendo o sal em detrimento de tudo o que lhe foi mostrado e, finalmente, escolhe, um búzio e abdica do sal, revelando várias razões para o fazer, mas entendendo aquele como uma imagem forte de abrigo, de casa, diríamos nós agora, de Sotão.

Ep. 6

Ideologia e terror. Será a solidão a condição subjacente a todos os movimentos totalitários?

Neste episódio vamos ser desafiados para refletir sobre a solidão na nossa era de isolamento, enquanto assistimos à ascensão da nova extrema-direita em várias partes do mundo. Samantha Rose Hill, filósofa americana especializada no pensamento de Hannah Arendt, afirma: “Nunca pensei, ao longo da minha vida, tendo estudado isto profissionalmente, que testemunharia o alinhamento entre o que hoje se chama antissemitismo e a nova extrema-direita.” Fala-nos da solidão como condição subjacente a todos os movimentos totalitários e diz-nos que “agora vivemos num mundo onde as pessoas estão isoladas e com medo umas das outras o tempo todo” Embora vivamos uma forma estranha de solidão, Samantha inspirada no pensamento de Arendt insiste que é importante não se deixar levar pela maré.
A ideologia é a maré que nos afasta da experiência de estar no mundo como um ser humano único que vive com os outros.
Nesta palestra há um apelo à ação: “A diferença entre as pessoas que decidem agir e as pessoas que decidem resistir é que as pessoas que decidem resistir
optam por pensar, e é aí que eu começo a temer”. A coragem, como disse, Arendt no seu livro Condição Humana, é a virtude política por excelência, porque quando se entra na esfera pública e se fala, pode-se ser acusado de estar errado. Pode ser-se morto, pode sentir-se terror. É preciso coragem para falar. É preciso coragem para falar em tempos sombrios. É preciso coragem para agir.
Samantha conclui que ninguém sabe o que vai acontecer; “Das pessoas que dizem que sabem o que vai acontecer, fuja, bandeira vermelha, fuja. Pessoas que dizem: «Eu tenho uma solução para isso». Fuja.”

Ep. 5

“O meu irmão disse-me que nem todos os animais pensam e a Stitch é um deles…. só quer comida e um lar para ficar, não pensa nas coisas certas e erradas.” – Rodrigo Costa, ator

Neste episódio, especial por estarmos na semana em que se comemorou o Dia da Criança, o nosso convidado foi o Rodrigo Costa, ator e que tem apenas 10 anos, mas é já considerada uma das grandes promessas da ficção nacional. Ele estreou-se em televisão aos 4 anos e tem construído uma carreira de sucesso no pequeno ecrã. É conhecido pela sua maturidade e talento natural. Nesta conversa procuramos falar com o Rodrigo sobre perguntas e não sobre respostas. Podemos afirmar que o seu talento não é só para ser ator, está também nele a semente da filosofia: Inquieta-se com o tamanho do espaço, não consegue compreender o tamanho do universo; também se inquieta com a ideia de infinito e pergunta: “ Se nós contarmos, nós conseguimos chegar no infinito? Há um número maior que o infinito?”; além destas inquietações que tão bem formulou sob a forma de perguntas, Rodrigo, de apenas 10 anos afirmou ser muito importante, mesmo sabendo que a tecnologia pode ajudar a responder a algumas questões, continuarmos sempre a perguntar: “ temos de continuar a discutir, porque do nada pode-nos vir uma coisa à cabeça, uma resposta, que não tem completamente nada a ver, mas pode ser essa resposta. Não devemos desistir de perguntar e de procurar as respostas”. E vai mais além, diz também que mesmo depois de descobrirmos as respostas para as perguntas de hoje, vão sempre surgir mais perguntas : “eu acho que vão continuar a surgir mais. Fica também infinito.” Poderíamos ter ficado à conversa com o Rodrigo infinitamente até porque percebemos que há nele um pendor para o pensamento filosófico. Já quando falamos de dinheiro e de saber se o Estado gasta bem o dinheiro ele não hesita em afirmar que o dinheiro do Estado deve ser gasto “em casas, em lojas, para comida, e nas coisas necessárias, carros “ na verdade em coisas que a população necessita. Terminamos a conversa com a habitual caixa dos desejos que, desta vez, se transformou em caixa das interrogações, para perceber que objetos suscitam mais perguntas ao Rodrigo: desde a forma de uma escova de pentear, a um chinelo, foi, finalmente, um telemóvel antigo – que só serve para telefonar e mandar e receber mensagens – que lhe despertou mais perguntas. “Como funcionam os telemóveis? Como vai a nossa voz vai de um lado para o outro?”
Para quem ache que as crianças não gostam de filosofia, o Rodrigo é a prova de que não só gostam, como genuinamente a praticam de forma autêntica.

Ep. 4

O “Assombro”. A descoberta da perplexidade e a possibilidade de resistência – António de Castro Caeiro, Filósofo

O assombro manifesta-se como uma sensação de estranheza e inospitalidade perante a perda de objetos ou pessoas, atitudes inesperadas, mudanças súbitas no familiar, ou situações como a doença na infância e despedidas. É o insólito que irrompe no quotidiano, tornando o conhecido desconhecido e provocando a perceção de que tudo mudou. Desde cedo, experiências radicais — como a morte, a separação ou a ausência – revelam a vulnerabilidade do tempo e do ser:

“a morte apresenta-se como um agente patológico” e o assombro nasce desse confronto com o outro, com o inesperado e com a transformação. Leva à consciência da passagem do tempo, da falta de tempo e da esperança que pode emergir após longos períodos de letargia. No fundo de todas as coisas, o assombro é o surgimento do ser, a revelação da vida no próprio ato de resistir ao desaparecimento.

A inquietação do desconhecido e o desconforto quando este se apresenta, retiram o véu da nossa vulnerabilidade e finitude. “E no assombro pode parecer que nós estamos sempre expostos a coisas diferentes, quando podemos estar sempre expostos à mesma coisa

António de Castro Caeiro leva-nos a embarcar numa jornada filosófica não apenas pela epistemologia e etimologia do assombro, mas pela realidade intangível com a qual todos nós nos deparamos na vida quotidiana sem nos apercebermos disso.

Ep. 3

Entre um lápis e uma flor: a escolha de Joana Bértholo diz muito sobre nós

Neste episódio, a conversa flui com Joana Bértholo, escritora que, em paralelo com criação literária, escreve regularmente para dança e para teatro. Falamos de utopias e distopias e no papel da imaginação. Joana revelou ser uma pessoa de muitas inquietações, vindo de um longo período a pensar em fantasmas, ausências e perdas, como a própria refere: “no meio deste processo criativo, dei por mim a falar com oráculos, a pensar nos oráculos, o que é muito interessante porque é um diálogo transcultural, ou seja, desde sempre e em diversas culturas havia sistemas de adivinhação”.
A conversa seguiu para as utopias e distopias como modalidades de pensamento que nos permitem criar uma espécie de laboratório para pensar o futuro. Poderá a Joana vir a escrever uma utopia? Ou será que se sente desconfortável com esta modalidade literária? Será uma paródia?
A contemporaneidade, onde todos têm opiniões e, normalmente, opiniões imediatas, é sinal, para a nossa convidada, da doença dos nossos tempos: “não há tempo para pensar, não há tempo para duvidar não há tempo para discordar e muitas vezes sente-se que se apanha a boleia de uma espécie de movimento coletivo e isso é perigoso porque gera movimentos coletivos de pensamento.”
Joana reforça que “estarmos a viver uma realidade, um mundo, uma época com fortes traços distópicos o que é muito perigoso”, “a partir do momento em que aceitarmos que estamos a viver uma distopia estamos a abdicar de muito poder”.
A conversa termina com a habitual caixa dos desejos filosóficos e Joana Bértholo, apesar de confessar ter dificuldade em fazer escolhas – e para além de um lápis a inquietar ao ponto de ver nele uma pessoa e as suas diversas camadas – deixa-nos uma escolha que nos faz pensar na verdadeira importância da relação com o não humano. Joana Bértholo é um exemplo indiscutível de uma escritora na qual a imaginação pode, na verdade, não ter limites. O sucesso dos seus livros pode compreender-se ainda melhor depois de escutá-la neste episódio.

Ep. 2

José Gil: O Medo que vem aí

O medo protege-nos, mas também nos pode aniquilar. Segundo, José Gil “retira ao sujeito a sua capacidade de agir”. José Gil é um dos maiores filósofos portugueses da atualidade. Neste episódio do Princípio da Inquietação vai fazer uma caracterização do medo que se anuncia hoje através dos perigos trazidos pelas alterações climáticas, pelos avanços da extrema-direita mundial, pela inteligência artificial e por outros fatores. Vai ainda analisar diversos tipos e funções sociais do medo, para descrever o sentimento que parece estar a invadir e a moldar as subjetividades atuais. Relembra o medo da ditadura salazarista, o medo político e alguns dos aspetos da repressão do regime de Salazar.

Ep. 1

Porque é que uma esponja pode despertar o desejo filosófico? Rodrigo Guedes de Carvalho explica-nos

Neste episódio, o convidado que filosofou com David Erlich e Catarina Barosa foi Rodrigo Guedes de Carvalho. O pivot da SIC e também escritor, revelou as suas duas grandes inquietações: a origem do mal e a morte são dois temas que mantêm a sua mente em alvoroço. Entre o mal e a morte muitos outros pensamentos foram sendo tecidos durante a conversa. O neologismo, “apipocar” serviu para caracterizar crianças e adultos e uma certa nova forma de estar no mundo atual. O convidado deixa claras as suas preocupações em relação ao rumo do jornalismo e dos jornalistas; as ameaças das novas ferramentas de inteligência artificial (IA), criadas por acontecimentos totalmente gerados por IA que podem ter uma resposta reativa no mundo real. Isto pode estar na origem do mal. Rodrigo Guedes de Carvalho foi desafiado a fazer escolhas entre vários desejos filosóficos e por incrível que pareça, uma esponja de lavar a louça foi o objeto que mais despertou o seu desejo filosófico. Ele explica a razão de tal escolha.

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